• André Coletta

Por que proteger a Amazônia?

Atualizado: Set 21

Nesse artigo investigamos parte dos motivos que comprovam porque devemos proteger o bioma Amazônia. Ele fornece serviços ecológicos de grande valor para a sociedade brasileira e mundial, que quase nunca são considerados. Também é lar para uma diversidade incrível de seres vivos, de humanos a espécies vegetais e é uma peça fundamental para conseguirmos mitigar as mudanças climáticas.




O dia da Amazônia

No dia 5 de setembro é comemorado o dia da Amazônia, um bioma que está presente em nove países diferentes da América do Sul: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. Estendendo-se ao longo do rio Amazonas, o segundo maior do mundo com quase 7 mil km de comprimento, o bioma possui uma área de 7,8 milhões de km².


Possuindo a única floresta tropical do mundo ainda conservada em termos de tamanho e biodiversidade, ela é lar para uma infinidade de pessoas e outros seres vivos, além de oferecer uma série de serviços ecológicos ao mundo todo, como no ciclo das águas e do carbono.



Comunidades locais da Amazônia


Atualmente a Pan Amazônia, nome dado ao bioma em toda a América do Sul, possui 370 povos indígenas e cerca de 33 milhões de pessoas. No Brasil, estima-se que existam mais de 220 povos e 28,1 milhões de pessoas ao todo na Amazônia Legal. Desse total, quase 900 mil se declaram indígenas e 57,7% vivem em terras indígenas oficialmente reconhecidas.


Abrigando seres humanos há mais de 30 mil anos, a Amazônia foi moldada pelos amazônidas e pela interação deles com ela, que permitiu sua sobrevivência e crescimento, e também que rendeu muitos frutos para a civilização e biodiversidade do local. Um deles são os Sistemas Agroflorestais, onde diversas culturas agrícolas são cultivadas em consórcio, respeitando os ciclos naturais da vida nas florestas.


Alguns grupos que fazem parte dessa história e estão no local há milhares de anos, são os Yanomami, os Ashaninka e os Kayapó. O primeiro é o maior, com 26 mil pessoas no Brasil, presentes nos estados do Amazonas e Roraima. Todos possuem uma grande riqueza cultural e conhecimento acumulado ao longo dos anos, e correm riscos com o crescimento da exploração criminosa na área.



A vida no Bioma Amazônia

No Brasil, o bioma Amazônia ocupa uma área de 4,2 milhões de km² (cerca de 40% do território nacional) e a Amazônia legal possui 5 milhões de km² (59% do território nacional), já que engloba também parte do Cerrado e do Pantanal em sua composição. Ela está presente no Acre, no Amazonas, no Amapá, no Maranhão, no Mato Grosso, no Pará, em Rondônia, em Roraima e no Tocantins. A diferença entre as duas reside em sua definição: enquanto a primeira utiliza critérios geográficos relacionados à extensão do bioma, a segunda utiliza desafios e necessidades de desenvolvimento socioeconômico.

A Amazônia, que conta com a maior floresta tropical do mundo, é composta de diversos ecossistemas, como florestas densas de terra firme, florestas estacionais, florestas de igapó, campos alagados, várzeas, savanas, refúgios montanhosos e formações pioneiras.


Neles habitam, além de seres humanos, uma gigantesca diversidade de outros seres. Atualmente existe o registro de cerca de 40 mil espécies vegetais, 427 mamíferos, 1.294 aves, 378 répteis, 427 anfíbios, 3 mil peixes (85% das espécies de peixes da América do Sul) e até 128 mil de animais invertebrados, como abelhas, aranhas e formigas. Exemplos de espécies:

  • Insetos: besouros, formigas, mariposas e vespas

  • Aves: araras, cigana, gavião real, papagaios, periquitos, tucano, mutum e socó

  • Répteis: tartarugas (jabuti, tracajá), jacarés (jacaré açu), lagartos e serpentes (sucuri, jararaca, cascavel)

  • Anfíbios: perereca da amazônia, cobra mole, sapo-cururu, sapo-de-chifre-da-amazônia, rã kambô

  • Mamíferos: boto cor-de-rosa, tucuxi, ariranha, lontra, onça pintada, tamanduá-bandeira, macaco-prego, macaco-aranha etc

  • Peixes: pirarucu, piraíba, pirarara, pirambóia, peixe-borboleta, tubarão, enguia elétrica e arraia.

  • Vegetais: açaí, seringueira, andiroba, pupunha, mogno brasileiro, cedro, cacau, cupuaçu, guaraná e tucumã

Outro componente fundamental do bioma é a água. A bacia hidrográfica do Amazonas, que se trata de todos os recursos hídricos que vão até o rio amazonas, é a maior do mundo. O rio com quase 7 mil km de extensão, além de abrigar essa imensa quantidade de espécies que descrevemos anteriormente, contribui para a existência da vida no resto da floresta, dos Estados onde está presente e até do mundo. Isso porque, junto com seus mais de mil afluentes, que compõem a Bacia Hidrográfica, são responsáveis por manter o equilíbrio do ciclo da água. O eixo da bacia desce do alto dos Andes e termina no oceano Atlântico, depositando quase um sexto de toda a água que deságua nos oceanos ao redor do mundo. Adicionalmente, todo o vapor originado na Amazônia carrega fluxos de água suspensos no ar, chamados de rios voadores, que surgem no Oceano Atlântico e levam chuva para locais com até 3 mil km de distância, como o norte da Argentina, o sul do Brasil, Paraguai e Uruguai, cujas atividades agrícolas dependem fortemente desse fenômeno.

Finalmente, a bacia hidrográfica do Amazonas também é fundamental para o abastecimento para consumo próprio e agricultura de comunidades ribeirinhas, para navegação de pessoas e mercadorias, pesca, turismo e geração de energia via hidrelétricas.



Amazônia e o aquecimento global


A floresta amazônica possui um papel crucial no combate às mudanças climáticas. Isso porque para produzir energia através da fotossíntese, removem CO2 da atmosfera absorvendo-o em sua estrutura e depois liberando oxigênio. Por isso a Amazônia pode ser considerada um carbon sink, cuja tradução literal é uma pia de carbono, ou seja, ao longo de milhões de anos de desenvolvimento da floresta, ela foi sequestrando carbono da atmosfera e o armazenando nas folhas, galhos, tronco e solo.


Cerca de 30% das emissões do setor da agricultura a nível mundial, de acordo com o livro “How to Avoid a Climate Disasterdo Bill Gates, vêm do desmatamento. Pois através do corte das árvores, o equilíbrio do solo é alterado, e ele é detentor do maior estoque de carbono nas florestas, emitindo o gás na atmosfera. O mesmo acontece com a queima, só que nesse caso a combustão das árvores também libera CO2.


Ainda no livro é debatida a solução que muitos sugerem para combater o aquecimento global: plantar árvores. Essa é uma questão muito delicada, pois é verdade que elas são capazes de armazenar CO2, mas precisamos nos questionar: quanto uma árvore consegue sequestrar? Em quanto tempo? Qual o espaço necessário? E qual o custo?


Questões adicionais levantadas no livro pelo autor mostram que manter as florestas em pé é o que precisamos fazer e não tentar plantar mais árvores, pois essa solução é superestimada:

  • "Quanto CO2 uma árvore pode absorver durante sua vida? Varia mas em média 4 toneladas ao longo de 40 anos.

  • Quanto tempo a árvore sobrevive? Se for queimada, todo CO2 sequestrado será liberado novamente na atmosfera.

  • O que aconteceria se a árvore não fosse plantada? Se uma árvore fosse crescer no mesmo local, naturalmente, sua ação não causará nenhum ganho positivo na absorção de CO2.

  • Onde elas precisam ser plantadas? Em áreas tropicais, pois podem causar mais resfriamento do que aquecimento - o oposto ocorre em áreas polares - através da liberação de água em forma de vapor.

  • Algo estava sendo produzido naquele local (como é o caso da soja em algumas partes desflorestadas na Amazônia)? Se, por exemplo, uma grande área produtiva de soja for derrubada para substituí-la por uma floresta, isso pode elevar o preço da soja, o que aumentaria os incentivos para derrubarem florestas em outro local para a produção da mesma commodity."

Finalmente, se considerarmos a crescente necessidade por comida, resultante do aumento populacional, e o espaço necessário para neutralizar nossas emissões, veremos que essa solução não se encaixa à nossa realidade. Para neutralizar as emissões médias de um americano, seria necessária uma área de cerca de 200 mil m² de árvores plantadas. Se fossemos neutralizar as emissões de todos os americanos hoje, precisaríamos da metade de todo o espaço da Terra.


Analisando os dados de emissões brutas da floresta amazônica, do Inpe, podemos visualizar a relação clara entre desmatamento e emissões de CO2. Para isso utilizaremos as emissões de 2ª ordem, que consideram emissões por decomposição e queima de biomassa remanescente de anos anteriores, da floresta primária, isto é, que não sofreu relevante intervenção humana.



Pelo gráfico vemos que as emissões aumentam conforme o desmatamento cresce e o oposto é verdadeiro. Porém, devido aos efeitos de 2ª ordem, mesmo com o controle e redução dos desmatamentos na área em determinado ano, uma parte adicional às emissões será herdada de anos anteriores, aumentando a relação entre megatoneladas de CO2 emitidas por km².

O ano de 2014 apresentou menor o nível de desmatamento e emissões da década, seguindo um movimento de redução iniciado em 2008. Porém, desde então o desmatamento e as emissões vêm aumentando ano após ano. Atualmente a Amazônia emite mais CO2 do que absorve. No período de 2010 a 2019, segundo o artigo Carbon loss from forest degradation exceeds that from deforestation in the Brazilian Amazon, foi emitido 20% a mais do que absorvido.


Outro fato preocupante é mostrado no artigo Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change. Ele mostra que a relação entre emissões e desmatamento não é linear, isto é, o primeiro cresce a uma taxa maior do que o segundo, quando este apresenta crescimento. A parte leste da Amazônia possui 30% de sua área desflorestada e emitiu 10 vezes mais CO2 do que o oeste, que possui 11% de sua área desflorestada, e sua temperatura cresceu três vezes mais que a média global durante os meses mais quentes do ano.


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