• Vania Lech

Por que as crises hídricas acontecem?

Saiba mais sobre o histórico de escassez de água no Brasil, por que esses momentos acontecem, suas consequências e quais as perspectivas para o futuro




A água e sua importância


A água está em tudo. Ela está nos minerais e rochas e forma oceanos, mares, lagos, rios e lençóis subterrâneos. É fonte de vida primordial para as plantas, os animais e o ser humano, que dependem dela para a respiração, a digestão e a reprodução. Sem ela, portanto, é impossível existir vida na Terra.


Com a ação do calor e dos ventos, grande parte da água se encontra em constante movimentação, o que faz com que, na superfície, ela possa ser encontrada em estado líquido (nos oceanos, mares, lagos, rios e águas subterrâneas) ou em estado sólido (nas geleiras e neve). Através do chamado Ciclo da Água ou Ciclo Hidrográfico, ela pode ser transformada em vapor, se locomovendo para a atmosfera ao passar para o estado gasoso para, posteriormente, se condensar em forma de gotículas e retornar à superfície na forma líquida.


Dado que aproximadamente 70% da superfície do planeta é coberta por água, ainda é possível identificar indivíduos e organizações que agem como se pudéssemos utilizá-la despreocupadamente. No entanto, é importante perceber que, além de ser um recurso natural esgotável, apenas 2,5% do total é composto por água doce, enquanto os 97,5% restantes estão localizados nos oceanos. Ainda, de toda a água doce, 79% compõem as calotas polares e geleiras e 20% são águas subterrâneas, o que nos leva a uma quantidade disponível para consumo muito inferior ao total de água existente na Terra.


Além de nos proporcionar a vida, a água é primordial para o desenvolvimento de diversas atividades econômicas, como a produção industrial e a produção agrícola, e também para garantir uma boa qualidade de vida para a população. De acordo com o relatório Sick Water (Água Doente, em português) elaborado pelo Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas em 2010, 3,7% de todas as mortes do mundo são decorrentes de doenças relacionadas à água e mais da metade dos leitos hospitalares são ocupados por pessoas que sofrem dessas condições.



Crises hídricas no Brasil


Já em 2001 a população brasileira passou por um momento difícil com relação à geração de energia no país, a chamada crise do apagão. O momento se caracterizou por um racionamento de energia em grande parte do território brasileiro, com a obrigatoriedade de reduzir o consumo de eletricidade em 20%. As principais causas apontadas para esse problema foram a falta de planejamento e investimentos no setor energético e a grande escassez de chuva, que fez com que o nível de água nos reservatórios das hidrelétricas ficasse muito abaixo do necessário.


Mais tarde, em 2014, o Brasil enfrentou mais um episódio crítico de falta de água, que afetou principalmente a região Sudeste. Apesar de os efeitos terem sido sentidos majoritariamente nesse ano, imagens do satélite Grace da Nasa mostram que a perda do volume de água já se iniciava em abril de 2012, sendo que desse momento até o fim de 2015, a região perdeu 56 trilhões de litros de água ao ano, o equivalente a 32 vezes o volume do reservatório de Guarapiranga.


De acordo com um estudo realizado na época pelo brasileiro Augusto Getirana, da Nasa, sobre os dados do satélite, “essas regiões estão experimentando um período de seca em longo prazo, com secas extremas que ocorrem esporadicamente”. Segundo Getirana, “satélites não preveem futuro, mas a tendência é de secas mais severas”, e é o que está acontecendo atualmente.


No fim de janeiro de 2021, segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), o volume de água nos reservatórios das hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil foi o mais baixo para o mês desde 2015 e vem apresentando queda ano a ano.



De maneira geral, de acordo com o governo federal, a escassez de águas que as duas regiões enfrentam atualmente é a maior dos últimos 91 anos. Mesmo assim, segundo a organização e a BBC Brasil, a situação atual pode ser fortemente relacionada às crises já enfrentadas pelo país nos anos anteriores, já que a falta de chuvas e de gestão são dois de seus principais causadores.


Outra questão importante é a desigualdade que envolve a distribuição hídrica pelo território brasileiro. A região norte, por exemplo, que tem a menor densidade demográfica do país, é a que mais concentra reservas de água. Já o sudeste e o nordeste, onde está a maior parte da população e das indústrias, têm poucas reservas.


A escassez de água, portanto, se mostra um grande risco para a matriz energética brasileira, dado que 67% da energia gerada no país vem de usinas de fonte hídrica. No entanto, a falta desse recurso tem alcance ainda maior, levando também à redução na oferta de alimentos e na produção industrial e colocando em risco a situação de saúde da população, especialmente da parcela menos favorecida.



Principais causas da escassez de água


Apesar de ser considerada renovável, ou seja, ser um recurso que está em constante processo de reciclagem natural, a água também é esgotável, e esse vem se tornando um fato cada vez mais relevante dado o aumento de seu consumo. O crescimento populacional, industrial e da agricultura são algumas das principais causas para esse aumento. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), por exemplo, de cada 100 litros consumidos, 70 são usados na irrigação agrícola, o que configura o setor como o que mais consome água no Brasil. Isso ocorre pelo fato de que para se produzir grandes quantidades de alimento é preciso de muita água para irrigação. Por exemplo, para se produzir um quilo de lentilhas são necessários 5.900 litros de água. A pecuária e a criação de animais também são grandes consumidores, uma vez que para se produzir apenas um quilo de carne bovina são necessários impressionantes 15.500 litros de água.


O desperdício também contribui muito para essa escassez e pode ser gerado de diversas maneiras, seja pelos cidadãos (deixando a torneira ligada enquanto escova os dentes, ou tomando banhos demorados) ou por parte de empresas, indústrias e da esfera pública. A agropecuária, por exemplo, além de ser o setor que mais consome, é também o que mais desperdiça água no país. De acordo com estimativas feitas pelo Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), quase metade do que é utilizado pelo setor é desperdiçado, seja por erros de irrigação ou pela falta de controle de quantidades a serem utilizadas.


Além disso, segundo levantamento feito pelo IBNET (International Benchmarking Network for Water and Sanitation Utilities) em 2015 com dados de 2011, 37% da água tratada no Brasil é desperdiçada, enquanto que nos Estados Unidos essa perda é de 13%. Essa taxa elevada se dá principalmente por conta de vazamentos e ligações clandestinas nos canais de condução de água até a casa dos consumidores.


A poluição é outro fator que faz com que a água existente não seja aproveitada para o consumo, e a ação humana é a principal responsável por isso. Os maiores impactos estão associados a algumas atividades econômicas, como as atividades agrícolas, que utilizam pesticidas e fertilizantes químicos que podem infiltrar no solo e atingir o lençol freático, e as atividades industriais, que geram vários resíduos poluentes e tóxicos que podem ser lançados nos rios e mares. Outro exemplo claro é a exploração petrolífera em águas subterrâneas, que acaba levando ao vazamento de petróleo no mar e a grandes desastres ecológicos. Além disso, algumas atividades domésticas também são poluidoras, seja pelo uso de detergentes e produtos de limpeza, que potencializam o crescimento de algas que, quando morrem, esgotam a oferta de oxigênio, ou pelo próprio esgoto doméstico.


Ademais, por incrível que possa parecer, o desmatamento na Amazônia tem forte influência não só nas chuvas da região, mas também no sudeste, sul e centro-oeste. Isso ocorre porque a umidade levada do oceano pelos ventos, ao chegar na floresta, se precipita em forma de chuva e é absorvida pelas raízes das árvores. Por meio do processo de transpiração, a água presente nas plantas retorna para a atmosfera e, novamente com o mecanismo dos ventos, é transportada para outras regiões. Dessa forma, quanto menos árvores a Amazônia -- e outras regiões -- tiver, menores serão as incidências de chuvas no país.


Outro fator que tem agravado cada vez mais a situação hídrica não só do Brasil, mas em todo o mundo, é o aquecimento global, já que os ciclos da água são diretamente ligados à temperatura da atmosfera. Quando os ciclos passam por alterações, os níveis de vapor de água na atmosfera também se alteram, o que pode levar à diminuição de chuvas, ao ressecamento do solo e à redução de disponibilidade de água para consumo em alguns locais e, em outros, chuvas torrenciais e alagamentos devastadores.



O que diz o relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2021


Publicado em 9 de agosto deste ano, o último relatório do IPCC a respeito das mudanças climáticas indica que, se não reduzirmos as emissões de CO₂ pela metade até 2030 e zerá-las até 2050, dificilmente conseguiremos impedir um aquecimento global acima de 1,5ºC, o que pode gerar impactos catastróficos para todo o planeta. O relatório aponta vários impactos das mudanças climáticas indicados pelos especialistas já para os próximos 30 anos. “O pior ainda está por vir e afetará a vida dos nossos filhos e netos muito mais do que as nossas.”


A seca é um dos impactos apontados pelo relatório. Segundo Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da Organização Mundial da Saúde, “a água é uma das questões com que a nossa geração vai se confrontar muito em breve. A falta de acesso à água potável afetará nossa saúde, não só na luta pela água, mas também em doenças relacionadas à falta de água e saneamento. Haverá deslocamentos em massa, migrações em massa e precisamos tratar tudo isso como um problema global.”


Dado que já atualmente mais da metade da população mundial sofre com a insegurança hídrica, os impactos das mudanças climáticas podem ser devastadores. Portanto, uma mudança de percepção se faz urgente, visto que preservar os recursos hídricos é o mesmo que preservar nossa existência e o planeta como o conhecemos.




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