• Marina Torres

ODS 5: quão longe estamos de alcançar a igualdade de gênero?

Entenda qual a situação brasileira e do mundo com relação à igualdade de gênero, como empresas vêm agindo para melhorar a situação e quais as principais recomendações para evoluirmos no país.




O que são os conceitos de gênero e de igualdade de gênero?


Ao contrário de como é comumente utilizado, o termo gênero não faz referência às características naturais e biológicas de determinado indivíduo, mas sim às construções sociais criadas em torno do sexo. Isto é, gênero se refere a todos os aspectos que, ao longo do tempo, foram sendo definidos e relacionados às funções ou comportamentos esperados de uma pessoa, a partir do seu sexo biológico.


A igualdade entre os gêneros é considerada um direito humano por muitas organizações, como o Fundo para as Populações das Nações Unidas. No entanto, apesar disso e de, historicamente, as mulheres terem conquistado cada vez mais espaço socialmente, a desigualdade ao redor do mundo segue significativa. De acordo com o último Relatório Global de Desigualdade de Gênero, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial em 2021, seguindo-se as tendências mundiais, as lacunas sociais existentes entre os gêneros devem levar 135,6 anos para serem fechadas.



Mas qual é a origem da desigualdade de gênero?


As teorias do curso da vida, formuladas originalmente por Glen Elder, professor e sociólogo americano, indicam uma possibilidade. A partir delas, pode-se entender que a posição de desvantagem das mulheres na sociedade se desenvolveu a partir das interações entre normas e valores de gênero, oportunidades e barreiras criadas pela sociedade e as preferências e recursos dos indivíduos ao longo do tempo. Ou seja, a desigualdade é resultado de processos sutis, contínuos e, algumas vezes, inconscientes, reforçados pelas noções e estereótipos de gênero criados pela sociedade.


De acordo com um estudo publicado pelo European Journal of Archaeology (Jornal Europeu de Arqueologia, em português), os primeiros indícios de desigualdade de gênero começaram a se firmar já na época em que as sociedades estavam deixando de ser nômades para formar os assentamentos agrícolas. O estudo analisou túmulos que tinham de 5.000 a 8.000 anos da Península Ibérica e se baseou em dados e nas ideias de Gerda Lerner, professora, historiadora e escritora austríaca.


Os autores e arqueólogos Marta Cintas-Peña e Leonardo García Sanjuán, da Universidade de Sevilha, analisaram vinte e um locais na Espanha que, juntos, continham restos mortais de mais de 500 indivíduos. A partir das observações, foi constatado que a maioria dos corpos em sepulturas eram de homens: para cada sepultura feminina, havia 1,5 masculina. De acordo com Cintas-Peña, isso indica que mulheres podem não ter tido a mesma probabilidade de ter um enterro formal, dado que “a quantidade de homens não pode ser natural”. Além disso, foi identificado que os homens eram mais propensos a serem enterrados com pontas de flechas, enquanto as mulheres, com cerâmicas.


Outro ponto importante revelado pelo estudo foi o de que a presença masculina também era maior do que a feminina nas ilustrações das cavernas, sendo majoritariamente representados em cenas de caça e guerra. Segundo Cintas-Peña, “todas as evidências que encontramos estão de alguma forma ligadas ao predomínio dos homens em termos de violência. Havia uma diferença de poder e essa diferença talvez se baseasse no uso da violência por homens”.


Apesar de não ser um resultado definitivo a respeito do tema, o estudo abre as portas para que novas investigações sejam feitas e mais evidências sejam encontradas. Afinal, de acordo com a autora, “quanto mais conhecermos a respeito das origens da desigualdade de gênero, mais bem preparados estaremos para enfrentá-la”.




Momentos da história que contribuíram para a desigualdade de gênero


A desigualdade de gênero acompanha a história das mulheres há muitos anos, sendo que diversos aspectos do passado têm reflexos nos dias de hoje e, muito provavelmente, ainda terão no futuro. Alguns deles serão explorados a seguir:



Direito ao voto


Talvez um dos aspectos mais conhecidos que representa a desigualdade de gênero seja o fato de as mulheres, por muito tempo, terem sido proibidas de votar. Apesar de essa parecer uma realidade distante para muitos -- como a Nova Zelândia, primeiro país a instaurar o voto feminino, em 1893 -- as mulheres de alguns países somente tiveram seu direito garantido há pouco tempo, como é o caso da Arábia Saudita, que abrangeu as mulheres nas votações apenas em 2011.


Outro exemplo é o Vaticano, único país que ainda não permite a participação feminina, dado que os únicos que podem eleger o Papa são os cardeais e as mulheres não podem ocupar tal posição. Ao mesmo tempo em que o Papa Francisco vem tomando algumas atitudes para aumentar a participação feminina nas tomadas de decisão da igreja -- como a nomeação da primeira mulher com direito ao voto no Sínodo dos Bispos --, as medidas ainda são tímidas e a realidade feminina no país ainda é preocupante. De acordo com a ex-diretora italiana do suplemento feminino mensal Donne Chiesa Mondo do jornal L’Osservatore Romano, Lucetta Scaraffia, “o Vaticano é cheio de servas, isso é muito grave. Elas não têm contrato de trabalho, férias, aposentadoria, nada. Há uma total falta de respeito em relação à vocação feminina, que em muitos casos chega à violência sexual. A coisa mais terrível é que dizem para elas que a missão espiritual é limpar a casa, passar pano, fazer serviço de empregada doméstica. Elas não são sequer colocadas na mesa com os padres”.



Casamento


Historicamente, o papel das mulheres na sociedade era muito associado à criação dos filhos e ao cuidado com a casa, enquanto os homens eram vistos como os provedores e tomadores de decisão. Por muito tempo, a lei conferiu aos maridos total direito sobre as propriedades de suas esposas e também sobre seus próprios corpos. A Alemanha, por exemplo, somente proibiu o estupro marital em 1997, dado que, antigamente, entendia-se que o consentimento para relações sexuais já havia sido dada pela esposa no momento do casamento. Segundo relatório de 2021 do Fundo de População das Nações Unidas, 43 países ainda não possuem nenhuma lei que proíba o estupro dentro do casamento.



Atribuição do trabalho doméstico


Como dito anteriormente, qualquer trabalho doméstico era direcionado para as mulheres e, hoje, essa realidade ainda está muito presente na vida de muitas. De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as italianas gastam cerca de 22 horas semanais a mais que seus parceiros nos afazeres de casa, em média. Por ano, o valor estimado do trabalho não remunerado exercido pelas mulheres globalmente totaliza US$10 trilhões, o equivalente a 13% do PIB mundial.



Educação


No passado, as necessidades educacionais eram entendidas como diferentes entre os gêneros: por um lado, as meninas eram mais propensas a serem educadas em casa, com foco em seus futuros como esposas e mães; por outro, os meninos eram mais propensos a aprenderem matemática e ciências para suas futuras profissões. Ou seja, as meninas não eram incentivadas academicamente e, como consequência, observamos uma baixa participação feminina nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática. Segundo o Global Gender Gap Report 2021 (Relatório Global de Diferença de Gênero, em português), levantamento feito anualmente pelo Fórum Econômico Mundial, apenas 10,7% das mulheres brasileiras em universidades estão matriculados nas áreas mencionadas anteriormente, versus 28,6% dos homens.




Consequências da desigualdade de gênero


Violência contra as mulheres


Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Melbourne com cerca de 17.500 australianos concluiu que o baixo apoio à igualdade de gênero está relacionado a atitudes que podem encorajar a violência contra as mulheres, sendo que a hostilidade para com elas e a crença em papéis de gênero rígidos foram os maiores preditores de apoio indireto às agressões.


Além disso, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa violência começa cedo: 1 em cada 4 mulheres jovens (de 15 a 24 anos) que estiveram em um relacionamento declaram já ter sofrido violência de um parceiro íntimo. Segundo Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da instituição, “a violência contra as mulheres é endêmica em todos os países e culturas, causando danos a milhões de mulheres e suas famílias, e foi agravada pela pandemia COVID-19. Mas, ao contrário do COVID-19, a violência contra as mulheres não pode ser interrompida com uma vacina. Só podemos lutar contra isso com esforços sustentados e enraizados -- por governos, comunidades e indivíduos -- para mudar atitudes prejudiciais, melhorar o acesso a oportunidades e serviços para mulheres e meninas e promover relacionamentos saudáveis ​​e mutuamente respeitosos.”



Falta de representatividade


A representatividade de grupos mais vulneráveis na sociedade como um todo é um dos fatores essenciais para que a democracia seja exercida, uma vez que permite a pluralidade e a diversidade. A falta de representatividade política, especificamente, indica um grande problema pois pode abrir espaço para propostas com benefícios direcionados apenas a uma parcela da população, sem levar em consideração as peculiaridades e necessidades das demais.


Em 2018, foi apontado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que nas eleições daquele ano 68,4% das candidaturas foram masculinas e apenas 31,6% foram femininas. Com relação à raça, mais da metade (52,4%) das pessoas candidatadas eram declaradas brancas e o restante (47,6%) abrangeu todas as demais etnias. A respeito dos eleitos, os números são ainda mais alarmantes: 84,9% foram homens e 75% deles se declararam brancos.



Desigualdade no mercado de trabalho


De acordo com a segunda edição da pesquisa Estatísticas de Gênero do IBGE, no Brasil, 21,5% dos homens e 29,75% das mulheres finalizaram o ensino superior, o que indica que o nível de escolaridade das mulheres é mais elevado que o dos homens. Mas, mesmo assim, tal realidade não se reflete no mercado de trabalho, visto que, em 2019, 73,7% dos homens com 15 anos ou mais ingressaram no mercado de trabalho, frente a 54,5% das mulheres.


Além disso e da já conhecida disparidade salarial entre homens e mulheres para um mesmo cargo, outros fatores merecem atenção. Com a pandemia, a presença feminina no mercado de trabalho caiu de 53,3% em 2019 para 45,8% em 2020, uma queda maior do que a da presença masculina (de 71,8% para 65,7%), segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.


Por outra perspectiva, a desigualdade no mercado de trabalho acaba por influenciar outras questões. O desemprego pode levar a uma maior dependência financeira e ao aumento da violência doméstica, por exemplo. De acordo com informações do Ministério Público, uma a cada quatro mulheres que sofrem violência doméstica e familiar não denunciam o caso por depender financeiramente de seu agressor.


A violência doméstica, por sua vez, também é capaz de influenciar a desigualdade no mercado de trabalho. Segundo o Relatório da Violência Doméstica e seu Impacto no Mercado de Trabalho e na Produtividade das Mulheres de 2017, mulheres vítimas de agressões chegam a faltar até 18 dias por ano ao trabalho e, muitas vezes, não se sentem confortáveis em justificar a ausência. Por conta disso e da queda de produtividade (estima-se que chegue a uma redução de até 50%), muitas pedem demissão ou são demitidas.



Impactos econômicos


Como mencionado anteriormente, o mercado de trabalho é fortemente influenciado pela desigualdade de gênero, seja pela perda de produtividade gerada pela violência, seja pela perda monetária decorrente dos dias não trabalhados por conta de agressões (os 18 dias por ano citados anteriormente geram um prejuízo anual de R$1 bilhão para a economia brasileira), seja pelas oportunidades que são perdidas ao deixar de contratar uma mulher apenas pelo fato de ser mulher. Consequentemente, a economia é afetada.


De acordo com a professora Carmen Migueles, da EBAPE, pesquisas do Banco Mundial indicam uma correlação direta entre igualdade de gênero e a performance da economia de determinado país. Isto é, países com maiores níveis de desigualdade apresentam, também, maiores níveis de pobreza. “Quando o Banco Mundial coloca a igualdade de gênero como meta do milênio é porque a questão da mulher é causal para uma série de outros problemas, inclusive a dificuldade de educar as pessoas para uma cultura de mais tolerância. Essa criança criada em uma situação de vulnerabilidade mais facilmente reproduz discriminação, preconceito e violência porque ela não teve acesso a uma educação estruturada”.



Impactos na saúde física e mental


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as desigualdades sociais e econômicas sofridas pelas mulheres como a menor representatividade no mercado de trabalho e em cargos de liderança, menores salários pelas mesmas funções e eventos que provoquem de maior nível de estresse como agressões, contribuem para que haja também impactos na saúde.


Um estudo realizado em 2020 por Simone Vigod e Paula Rochon da Faculdade de Medicina de Toronto, no Canadá, investiga essa relação. Os resultados indicam que as mulheres que responderam “sim” à percepção de discriminação de gênero -- 1 em cada 10 -- apresentam níveis de depressão mais elevados.




A desigualdade de gênero e o recorte racial


Uma análise sobre a desigualdade de gênero sem abordar o recorte racial, seria incompleta. As questões de gênero devem ser estudadas considerando também a perspectiva da interseccionalidade, identificando como os diferentes eixos de discriminação se relacionam e como os efeitos de exclusão em grupos já minorizados são ampliados.


A interseccionalidade é um conceito criado pela professora e cientista nas áreas de raça e gênero Kimberlé Williams Crenshaw, que o definiu como “formas de capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação: sexismo, racismo, patriarcalismo”. Ou seja, quando um indivíduo se encaixa em mais de um grupo minoritário, ocorre uma intersecção de discriminação e, consequentemente, os desafios a serem enfrentados se tornam ainda maiores.


Segundo o estudo Diferença do Rendimento do Trabalho de Mulheres e Homens nos Grupos Ocupacionais realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, pessoas pretas ou pardas recebem menos do que as pessoas brancas, independente do tipo de ocupação (se formal, ou informal), do montante dos rendimentos e da região do país. Como era de se esperar com base no conceito de interseccionalidade, a situação das mulheres pretas é a mais preocupante: para a mesma função, elas recebem menos do que a metade (44,4%) do salário de um homem branco.

No entanto, os desafios enfrentados pelas mulheres pretas ultrapassam o aspecto profissional e avançam nas questões educacionais, políticas e de violência. De acordo com o Mapa da Violência de 2015, o assassinato de mulheres pretas aumentou em 54,2% em 10 anos, enquanto o de mulheres brancas caiu 9,8%. Ainda, o estudo aponta que as chances de uma mulher preta ser vítima de feminicídio, ou seja, morrer simplesmente por ser mulher, é 3 vezes maior do que uma mulher branca. Com relação ao sistema carcerário, 62% das mulheres em prisões são pretas, enquanto apenas 37% é branca, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015.


Na política, apesar de representarem mais de 28% da população brasileira, as mulheres pretas ocupam menos de 2% dos cargos no congresso nacional, segundo dados da PNAD Contínua de 2019. Na vida acadêmica, menos de 3% do corpo docente brasileiro de pós-graduação é composto por mulheres pretas.




Os desafios das mulheres transgênero


Pessoas transgênero são aquelas que não se identificam com seu sexo biológico, ou seja, uma pessoa que nasceu com o sexo masculino, mas se identifica como mulher, é uma mulher transgênero ou uma mulher trans, e vice-versa. Assim como os demais LGBTQIA+, as pessoas trans sofrem preconceitos diariamente, além da violência física e das poucas oportunidades que são oferecidas no mercado de trabalho.


Segundo dados da ONG Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata pessoas transgênero no mundo. Em 2020, foram 175 mortes, sendo que todas as pessoas eram mulheres trans. Para se ter dimensão da violência a esse grupo, a expectativa de vida do brasileiro, em 2021, é de 74,8 anos, mas entre os transgêneros o número cai para menos de 35 anos, comparando-se à da Idade Média.


Com relação à escolaridade, muitas pessoas trans acabam interrompendo seus estudos antes mesmo de chegar ao ensino médio por conta da intolerância e do preconceito. De acordo com Joyce Maria da Silva, ativista da Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, “é complicada essa questão das escolas. A maioria da população das meninas (trans) sofre preconceito, bullying. Elas acabam desistindo dos estudos e não têm acesso ao mercado de trabalho depois”. Essa informação é comprovada pelos dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que mostram que 90% das pessoas trans acaba se prostituindo.




Metas da ONU para o ODS 5





Situação mundial no cumprimento do ODS 5


O Global Gender Gap Report 2021 (Relatório Global de Desigualdade de Gênero, em português), levantamento feito anualmente pelo Fórum Econômico Mundial, determina os melhores e os piores países em termos de igualdade de gênero a partir da análise de quatro áreas: participação econômica, desempenho educacional, saúde e sobrevivência e empoderamento político.


A pontuação mais alta possível é 1 (igualdade de gênero) e a mais baixa possível é 0 (desigualdade de gênero). De acordo com o relatório, os 10 primeiros países do ranking são:


  1. Islândia -- 0,892

  2. Finlândia -- 0,861

  3. Noruega -- 0,849

  4. Nova Zelândia -- 0,840

  5. Suécia -- 0,823

  6. Namíbia -- 0,809

  7. Rwanda -- 0,805

  8. Lituânia -- 0,804

  9. Irlanda -- 0,800

  10. Suíça -- 0,798


A Islândia é o país com maior igualdade de gênero no mundo pela 12ª vez e os cinco países que mais evoluíram no índice foram Lituânia, Sérvia, Timor-Leste, Togo e Emirados Árabes Unidos, tendo reduzido suas diferenças de gênero em pelo menos 4,4%. Timor-Leste e Togo também estão entre os quatro países (incluindo a Costa do Marfim e Jordan) que conseguiram reduzir sua desigualdade de gênero no subíndice participação econômica em pelo menos 1 ponto percentual em um ano.


A pontuação mundial média de 2021, calculada com a ponderação da população de cada um dos 156 países do estudo, é de 67,7% (ou 0,677), um aumento de quase 0,6 pontos percentuais com relação a 2020. No cenário atual, estima-se que serão necessários 135,6 anos para que a igualdade de gênero seja alcançada no mundo. O subíndice mais representativo na disparidade entre os gêneros é o de empoderamento político, dado que na totalidade dos países analisados, as mulheres representam apenas 26,1% dos 35.500 assentos no parlamento e, em 81 países, a partir de janeiro de 2021, nenhuma mulher esteve em posição de chefe de estado.


Como já mencionado anteriormente, a pandemia teve grande impacto na desigualdade de gênero, e não foi apenas no Brasil. Ao redor do mundo, 5% das mulheres perderam seus empregos frente a 3,9% dos homens e o declínio na contratação de mulheres para cargos de liderança foi mais acentuado que o dos homens.



Desempenho brasileiro no cumprimento do ODS 5


O Brasil, por sua vez, encontra-se na 93ª posição no ranking construído pelo Fórum Econômico Mundial, com um Índice Global de Desigualdade de Gênero de 0,695. Apesar de o valor ter apresentado certa melhora em comparação a 2020 (+0,004), ela não foi suficiente para que o país subisse ou sequer se mantivesse no ranking, tendo caído uma posição. Em comparação com os 26 países da América Latina analisados, o Brasil está na 25ª colocação.


Ao observar as quatro áreas separadamente, a situação brasileira é a seguinte:


  • Participação econômica: 89ª posição -- índice: 0,665

  • Desempenho educacional: 37ª posição -- índice: 1,000

  • Saúde e sobrevivência: 1ª posição (junto com 29 países) -- índice: 0,980

  • Empoderamento político: 108ª posição -- índice: 0,138


O subíndice de empoderamento político brasileiro é o pior dentre os 4 analisados, tendo apresentado uma queda de 4 posições no ranking desde 2020. O que configura essa situação é o fato de que existem poucas mulheres em cargos parlamentares (apenas 15,2% são mulheres) e em ministérios (10,5%), sendo que uma figura feminina permaneceu como chefe de estado durante apenas 5 dos últimos 50 anos.


A participação econômica também é preocupante e tem como principais causas as questões salariais e de renda, cujos índices de desigualdade são, para 2021, de 54,2% e 56,7%, respectivamente (lembrando que, quanto mais próximo de 100%, maior o nível de igualdade). Com relação à força de trabalho, 80,1% dos homens estão empregados frente a 61,9% das mulheres, sendo que apenas 39,4% de todos os cargos gerenciais são ocupados por figuras femininas.


No estudo “Desigualdades de Gênero: Impacto Econômico da Alteração da Licença Paternidade e da Criação de Licença Parental”, publicado em 2019 pelos consultores Luciana da Silva Teixeira e Eliezer de Queiroz Noleto, defende-se a ideia de que a desigualdade de gênero no mercado de trabalho é reforçada pelo maior tempo gasto pelas mulheres nos trabalhos domésticos e no cuidado com os filhos, principalmente pelo período de licença-maternidade. De acordo com Noleto, “o empregador muitas vezes vai privilegiar a contratação de um homem porque ele sabe que a mulher pode eventualmente dar mais despesa para a empresa, principalmente em função da licença-maternidade – 120 dias, que podem ser estendidos até 180 dias –, e ele tem que contratar uma pessoa para o lugar”.



Por outro lado, as diferenças entre homens e mulheres na educação e na saúde foram praticamente zeradas. Na saúde, 98% da desigualdade foi sanada e, na educação, o índice de desigualdade alcançou 100% para todos os níveis: ensino fundamental, médio e superior. No entanto, é importante notar que apenas 10,7% das mulheres estão matriculadas em cursos superiores relacionados a ciências, tecnologia, engenharia e matemática, contra 28,6% dos homens.




Exemplos de empresas que estão se mobilizando em prol do ODS 5


Citi: Com o intuito de ajudar no financiamento de projetos que beneficiem empresas de mulheres e de comunidades vulneráveis, o Citi, em conjunto com a Corporação Financeira Internacional, emitiu em 2017 um título social de US$500 milhões com duração de 3 anos. Parte dos rendimentos destes títulos foram endereçados ao apoio de instituições financeiras que oferecem empréstimos a mulheres empreendedoras, facilitando, assim, o acesso dessas mulheres a financiamento.


The Gap Inc.: Mesmo que a grande maioria da mão de obra das confecções seja feminina, são poucas as que avançam para cargos de nível superior. Pensando nisso, a Gap criou o PACE em 2007 para capacitar mulheres para a vida profissional e também para seu desenvolvimento pessoal. O programa inclui aulas de comunicação, finanças, gerenciamento de tempo, resolução de problemas e tomada de decisão. Em um primeiro momento, a capacitação era focada apenas nas próprias funcionárias, mas agora inclui também mulheres das comunidades vizinhas e outras empresas parceiras ao redor do mundo.


Mastercard: Em 2014, a Mastercard criou e lançou o Girls4Tech, um programa educacional exclusivo baseado em ciências globais e padrões matemáticos que já alcançou 22.000 meninas em 16 países. Com o objetivo de inspirar meninas a desenvolver habilidades em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, o programa pretende ajudá-las a desenvolver habilidades de liderança e a conhecer as possibilidades de carreira nessas áreas.


Existem muitos outros exemplos de empresas que estão engajadas no atingimento do ODS 5 e que podem servir como exemplo para a sua organização. Se tiver interesse em saber mais, acesse o portal Business for 2030, criado com apoio do Conselho dos Estados Unidos para Negócios Internacionais (USCIB), que tem como objetivo compartilhar ações atuais e passadas de empresas que contribuem para a Agenda 2030.




O que pode ser feito para reduzir as desigualdades de gênero?


Licença parental


No estudo já citado anteriormente “Desigualdades de Gênero: Impacto Econômico da Alteração da Licença Paternidade e da Criação de Licença Parental”, é defendido fortemente pelos autores que a preferência dada aos homens no momento da contratação pode ser reduzida através da substituição da licença-maternidade pela licença parental. Essa nova proposta consiste na divisão dos quatro meses de licença após o nascimento de um filho igualmente entre pai e mãe (no caso de relacionamentos heterossexuais), em períodos alternados.


O ponto de vista da fundadora da ONG Think Olga e da consultoria Think Eva, Nana Lima, é similar ao dos autores. Segundo ela, “o ônus vai sempre recair sobre a mulher enquanto não tivermos uma licença coparental. É necessário que haja uma divisão de igual para igual, senão, o homem seguirá, às custas das mulheres, com o privilégio de ter um filho sem que isso cause nenhum impacto na sua carreira”.


Ainda, de acordo com o consultor Eliezer Noleto, essa medida não traria custos adicionais ao governo e nem às empresas. “Digamos que você mantenha os 120 dias de licença-maternidade e os transforme numa licença parental. A ideia é que, se o pai for gozar da licença parental, esse ônus também seja da Previdência, e não do empregador, da forma como é para a licença-maternidade. E, se for mantido o mesmo período de 120 dias, em princípio não terá aumento de despesa para a Previdência, porque ela já arca com esses 120 dias para a mãe”.



Medidas que amenizem a carga de trabalho não remunerado


Uma maior valorização do trabalho não remunerado, muitas vezes exercido majoritariamente pelas mulheres, deve acontecer. Para que isso seja possível, medidas devem ser criadas, como por exemplo:


- Criação de creches para que tanto homens quanto mulheres possam trabalhar

- Reestruturação dos processos de seleção e de avaliação de desempenho nas empresas

- Garantia de acesso à infraestrutura básica, dado que o tempo com trabalho não remunerado muitas vezes pode ser gasto com a coleta de água e lenha por mulheres em situações mais vulneráveis de renda

- Campanhas focadas em mudar a mentalidade da população a respeito de quem tem responsabilidade de cuidar da casa e dos filhos



Apoio ao empreendedorismo feminino


O empreendedorismo feminino, além de ser um forte aliado da economia pelo seu potencial de geração de empregos, é capaz de reduzir as desigualdades no mercado de trabalho e, consequentemente, ajudar mulheres a conquistarem a liberdade financeira, aumentarem a renda familiar e se libertarem de relacionamentos abusivos e violentos. Para fortalecê-lo, algumas medidas que podem ser adotadas são:


- Promover o financiamento de mulheres empreendedoras

- Eliminar preconceitos nos processos de recrutamento e seleção de incubadoras e aceleradoras

- Promover cursos que ajudem no desenvolvimento de habilidades técnicas e pessoais para que as mulheres sintam maior confiança nas tomadas de decisão

- Aumentar a infraestrutura digital, proporcionando maior acesso das mulheres a telefones celulares e melhorando sua alfabetização digital



Redução de vieses de gênero


Qualquer impulso em direção à igualdade de gênero começa com esforços para mudar crenças difundidas e arraigadas sobre o papel das mulheres na sociedade. E, claro, essa não é uma tarefa fácil. É necessário que governos, empresas e pessoas tomem atitudes hoje, mas que se sustentem no médio e longo prazo.


Entender que a luta pela igualdade de gênero não é apenas das mulheres é um primeiro passo. Homens devem ser encorajados a participar de discussões e a terem uma postura ativa para que os direitos sejam garantidos a todos, afinal, hoje são eles quem estão majoritariamente nos cargos com maior poder de decisão. Trabalhar com a conscientização das crianças desde cedo também se faz importante, tanto a partir da disseminação das causas de gênero quanto da inclusão da educação sexual nas escolas e nas famílias.




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