• André Coletta

Green bonds: o que são os chamados "títulos verdes"?

Greenbonds são títulos de dívida utilizados para o financiamento de projetos ou empreendimentos que gerem benefícios ao meio ambiente. Saiba mais sobre como surgiram, como funcionam e como é assegurado que os investimentos realmente serão de impacto positivo.




O que são green bonds?


Os green bonds, que significam “títulos verdes”, são títulos de dívida utilizados para o financiamento de empreendimentos que tragam benefícios para o meio ambiente, como por exemplo a construção de uma usina solar. Eles surgiram há pouco mais de dez anos como um instrumento promissor, para auxiliar empresas e países a conseguirem recursos para criarem projetos e atividades que facilitem a transição para uma economia com uso eficiente de recursos, de baixas emissões de carbono e, na medida do possível, resiliente às mudanças climáticas.



Como funcionam os green bonds?


Na prática, funcionam como títulos de dívida comuns, onde o emissor capta recursos através da venda desses títulos. Os compradores, em retorno, receberão de volta esse valor ao longo do tempo, com juros previamente fixados. Essa dinâmica é um ponto chave desse tipo de título de dívida. Comparativamente aos convencionais, eles são muito simples em termos de estrutura, elementos e procedimentos. Adicionalmente, eles permitem uma clara avaliação, por parte dos investidores, de quais serão os destinos dos recursos captados pelo emissor e seus impactos ambientais.


Alguns dos projetos que são elegíveis para financiamento, via emissão de títulos verdes, são:

  • Energia renovável: produção, transmissão, aparelhos e produtos;

  • Eficiência energética: como em edifícios novos e reformados; armazenamento de energia; aquecimento urbano; redes inteligentes; aparelhos e produtos;

  • Prevenção e controle de poluição: redução de emissões de gases de efeito estufa; controle de gases de efeito estufa; remediação de solos; prevenção, redução e reciclagem de resíduos e processos de transformação de resíduos em energia que sejam eficientes, do ponto de vista de emissões;

  • Gestão ambientalmente sustentável de recursos naturais vivos e uso da terra: incluindo agricultura ambientalmente sustentável; pecuária ambientalmente sustentável; insumos agrícolas inteligentes para o clima, como proteção biológica de safras ou irrigação por gotejamento; pesca e aquicultura ambientalmente sustentáveis; silvicultura ambientalmente sustentável, incluindo florestamento ou reflorestamento e preservação ou restauração de paisagens naturais;

  • Conservação da biodiversidade terrestre e aquática: incluindo a proteção de ambientes costeiros, marinhos e de bacias hidrográficas;

  • Transporte limpo: como elétrico, híbrido, público, ferroviário, não motorizado, multimodal, infraestrutura para veículos de energia limpa e redução de emissões nocivas;

  • Gestão sustentável de água e águas residuais: incluindo infraestrutura sustentável para água limpa e/ou potável; tratamento de águas residuais; sistemas sustentáveis de drenagem urbana e outras formas de mitigação de enchentes;

  • Adaptação às mudanças climáticas: incluindo esforços para tornar a infraestrutura mais resiliente aos impactos das mudanças climáticas, bem como sistemas de apoio à informação, como observação do clima e sistemas de alerta precoce;

  • Produtos, tecnologias de produção e processos adaptados à economia circular: como concepção e introdução de materiais, componentes e produtos reutilizáveis, recicláveis e recondicionados; ferramentas e serviços circulares e/ou produtos com certificados de ecoeficiência;

  • Edifícios verdes que atendam a padrões ou certificações regionais, nacionais ou internacionalmente reconhecidos por seu desempenho ambiental


Como assegurar que o investimento será verde?


Para emitir um título verde, o emissor é obrigado a fornecer aos investidores, informações e procedimentos que descrevem o uso dos recursos e como isso trará benefícios ambientais. No âmbito internacional, existem quatro princípios, que os emissores podem seguir de forma voluntária, a fim de esclarecer seus objetivos e promover a transparência na emissão desses títulos. São elas:

  • Uso dos recursos: é crucial que sejam divulgadas informações a respeito da utilização dos recursos para Projetos Verdes elegíveis, que deve ser devidamente descrita na documentação legal do título. Todos os Projetos Verdes elegíveis designados devem fornecer benefícios ambientais claros, que serão avaliados e, quando viável, quantificados pelo emissor.

  • Processo de avaliação e seleção de projetos: emissores devem esclarecer os objetivos ambientais do projeto, o processo utilizado para determinar como ele se encaixa na lista de projetos elegíveis, além de informações e procedimentos que determinam os riscos sociais e ambientais da implementação do projeto a ser financiado.

  • Gestão dos recursos: os recursos captados pelo título verde devem ser creditado em uma subconta, movido para uma subcarteira ou de outra forma rastreado pelo emissor de maneira apropriada e atestado pelo emissor em um processo interno formal vinculado às operações de empréstimo e investimento do emissor para Projetos Verdes elegíveis.

  • Comunicação: Os emissores devem disponibilizar e manter prontamente disponíveis informações atualizadas sobre o uso dos recursos a serem renovados anualmente até a alocação total e em tempo hábil no caso de desenvolvimentos relevantes. O relatório anual deve incluir uma lista dos projetos aos quais os recursos do Título Verde foram alocados, bem como uma breve descrição dos projetos, os valores alocados e seu impacto esperado.


Além disso, é uma prática comum a contratação de firmas para realizarem auditorias ou revisões sobre o projeto a ser financiado, seus riscos e seus objetivos. Existem quatro tipos de revisões externas comumente empregadas:

  1. Revisão de consultor e segunda opinião: um emissor pode buscar apoio de um consultor ou empresa de consultoria com reconhecida experiência em finanças climáticas ambientais, que revisa e avalia a estrutura de títulos verdes, normalmente na forma de uma segunda opinião antes da emissão.

  2. Verificação ou auditoria: um emissor pode ter seu título verde, a estrutura associada ou partes individuais verificadas de forma independente ou garantidas por terceiros qualificados (geralmente empresas de auditoria) em relação a certos critérios de referência internos ou externos.

  3. Certificação: um emissor pode ter seus títulos verdes, a estrutura associada ou partes individuais certificadas por um terceiro qualificado (geralmente um certificador credenciado) em relação a um padrão externo.

  4. Rating: Um emissor pode ter seu título verde ou estrutura associada avaliado por terceiros qualificados, geralmente agências de rating ou empresas de consultoria especializadas.


Como surgiram os green bonds?


Os primeiros green bonds foram emitidos, em 2008, em uma parceria entre o World Bank, o banco Skandinaviska Enskilda Banken (SEB) e um grupo de investidores suecos. Já, no Brasil, o início se deu em 2015 com a BRF S.A., com a emissão total de títulos, com segunda opinião, num valor de 500 milhões de euros e um cupom de 2,75% ao ano. Os recursos foram utilizados para trazer melhorias de eficiência energética, redução da emissão de gases de efeito estufa, projetos de energia renovável, gestão sustentável de água e resíduos, embalagens sustentáveis e gestão florestal sustentável.



Tamanho do mercado


Desde seu nascimento, somado à emergência climática, esse tipo de título ganhou muito destaque e aceitação, tanto por parte dos emissores, quanto pelos investidores. É uma ferramenta que permite que novas soluções, que podem mitigar os impactos mais severos das mudanças climáticas, sejam implementadas e, em sua ausência, poderíamos ter um futuro muito pior.



O CAGR (taxa de crescimento anual composta) dos títulos foi de 34% entre, 2014 e 2020, segundo os dados da Climate Bonds Iniciative, sendo que em 2020, o valor máximo de títulos emitidos foi atingido, a US$290 bilhões. Em 2021 já foram emitidos US$230 bilhões de dólares e, de acordo com a Moody’s, até o final do ano, esse valor pode chegar a US$450 bilhões.


Ao redor do mundo, no mesmo período (2014-2020), os três setores que mais captaram recursos com títulos verdes foram, respectivamente, o de energia (35,2%), edifícios (26,5%) e transportes (18,7%). Os demais são: água (9,7%), uso da terra (3,8%), resíduos (3,6%), adaptação e resiliência às mudanças climáticas (1,7%), indústria (0,4%) e TI (0,3%).



O Brasil possui o maior mercado de títulos verdes na América Latina, e aqui, foram emitidos, durante esse período, US$8,7 bilhões. As emissões de green bonds vêm crescendo no país consistentemente, com exceção do ano de 2018 devido às incertezas políticas. Até então, o ano de 2017 foi marcado como o ano onde houve a maior emissão desses títulos no país. De todos os títulos brasileiros, 76% foram emitidos nacionalmente e 59% do volume total foi feito em dólares, e 35% em reais.


Finalmente, o perfil de projetos mais financiados aqui são diferentes da média global. O primeiro lugar é ocupado por energias renováveis (45%), seguido de uso da terra (27%) e, em terceiro lugar, transportes (11%). A diferença entre recursos captados para projetos de uso da terra no Brasil é gigante e deve se tornar um padrão, dado a vasta quantidade de biomas ricos em biodiversidade, e ameaçados, que o país possui. Os demais setores são: edificações (7%), indústria (5%), água (4%) e resíduos (1%).





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