• André Coletta

Cerrado: o segundo maior bioma do Brasil

Saiba mais sobre as características, a situação atual de preservação e a importância ambiental e econômica do bioma Cerrado.



O cerrado é um dos seis biomas brasileiros, ocupando quase um quarto do território nacional, sendo, portanto, o segundo maior bioma do país. Sua área, de cerca de 2 milhões de km², se encontra na região central do Brasil e abriga uma grande variedade de espécies animais e vegetais. Ele é ocupado por seres humanos há mais de 10 mil anos e hoje abriga, aproximadamente, 46 milhões de pessoas. Dentre os povos tradicionais da região, que possuem diferentes histórias e culturas, estão os indígenas, quilombolas, geraizeiros, geraizenses, ribeirinhos, babaçueiras, veredeiros, varjeiros e vazanteiros.


Além de sua grande representatividade no setor agrícola nacional, o bioma também é fundamental para a gestão hídrica do país. Todavia, depois da Mata Atlântica, ele é o bioma que mais sofreu com as ações humanas, tendo 50% de sua área original reduzida. Atualmente, ele é considerado um dos 25 ecossistemas do planeta com alto risco de extinção e, ainda assim, somente 8,21% do seu território é legalmente protegido por unidades de conservação.



O bioma Cerrado


O Cerrado se encontra na região central do Brasil, no nordeste do Paraguai e no leste da Bolívia. Aqui, ele faz parte de 15 estados: Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal. A leste e nordeste, o bioma faz fronteira com a Caatinga, ao sudoeste com o Pantanal, a sudeste com a Mata Atlântica e ao norte com a Amazônia, sendo que parte de seu território está dentro da Amazônia Legal. O bioma possui mais de 11 mil espécies de plantas nativas, com quase 4.500 espécies endêmicas, isto é, que só existem no cerrado. Dada sua grande extensão, há 11 diferentes tipos de vegetações, divididas em três formações:

  • Florestais:

  • Mata ciliar

  • Mata de galeria

  • Mata seca

  • Cerradão

  • Savânicas:

  • Cerrado sentido restrito

  • Parque de Cerrado

  • Palmeiral

  • Vereda

  • Campestres:

  • Campo sujo

  • Campo limpo

  • Campo rupestre


São exemplos de espécies vegetais presentes no Cerrado:

  • Angico

  • Barbatimão

  • Aroeira

  • Ipê

  • Copaíba

  • Canjerana

  • Pau-santo

  • Pequizeiro

  • Pau-terra

  • Pau-jacaré

  • Lobeira

  • Gravatá

  • Ingá

  • Mosquitinho

  • Jabuticaba


Uma alta variedade de animais também habita o Cerrado - terceira maior, logo após a Amazônia e Mata Atlântica - apesar de uma boa parcela dos invertebrados da região não ser integralmente conhecida. São 199 espécies de mamíferos, 864 de aves, 180 de répteis, 210 de anfíbios e 1200 de peixes e 2.653 espécies de animais vertebrados. Ele é também, o segundo bioma com maior número de mamíferos ameaçados de extinção, 41 espécies sendo que 12 são endêmicas, como o tamanduá-bandeira e o veado-campeiro. São exemplos de animais encontrados no Cerrado:

  • Anta

  • Ema

  • Seriema

  • Jibóia

  • Jararaca

  • Urubu

  • Gavião

  • Tatu

  • Tucano

  • Papagaio

  • Tamanduá-mirim

  • Cachorro-do-mato

  • Lobo-guará

  • Jaritataca

  • Gato-mourisco

  • Onça-parda

  • Onça-pintada

  • Teiú

  • Cateto


A importância do Cerrado na geração de água


O Cerrado possui uma geografia de planaltos e está localizado na parte central do Brasil, o que lhe confere uma posição de alta importância para a geração de água no país. 8 das 12 bacias hidrográficas brasileiras são abastecidas por ele: bacia amazônica, do Araguaia-Tocantins (78% de toda água vem do Cerrado), Atlântico Norte-Nordeste, São Francisco (70% de toda água vem do Cerrado), Atlântico Leste e do Paraná-Paraguai (48% de toda água vem do Cerrado). Além disso, três grandes aquíferos são abastecidos por ele: Bambuí, Urucuia e Guarani. Ao todo, 8% da disponibilidade de água nacional tem origem no Cerrado.


Por essas características, o Cerrado é comumente chamado de o berço das águas do Brasil, e a sua destruição pode comprometer o fornecimento tanto de água quanto de energia para milhões de pessoas, impactando negativamente o ecossistema de diferentes formas. Assim, intervenções realizadas no uso da terra do Cerrado são, ultimamente, realizadas também na geração e circulação da água no bioma. Um exemplo são os desmatamentos para plantação de culturas agrícolas, que podem levar ao assoreamento das áreas das bacias hidrográficas e a contaminação das águas com o uso de agrotóxicos.



Exploração comercial no Cerrado


Para analisar a exploração comercial do Cerrado, utilizamos o PIB dos Estados presentes no bioma, no período de 2002 a 2018. Nesse último, 64,3% do PIB dos Estados vinha do setor de serviços, 17,5% da indústria e 4% da agropecuária. Sendo que este teve o menor crescimento no período e o primeiro teve o maior.




Adicionalmente, segundo o Terraclass, estudo destinado ao mapeamento do uso da terra e da cobertura vegetal do Cerrado com base em 2013, áreas de pastagens ocupam 29,5% do bioma, a agricultura anual representa 8,5% e as culturas perenes 3,1%, totalizando 41,1% do uso total.


A vegetação natural do bioma, que possui diversas espécies frutíferas, é utilizada na agricultura e no comércio local e nacional, com a venda de pequi, buriti, mangaba, cagaita, bacupari, cajuzinho do cerrado, araticum e sementes de barú.



Destruição do Cerrado: por que ocorre e quanto já foi perdido


Mudanças no uso da terra surgem como consequência do crescimento da exploração comercial, crescimento populacional e desenvolvimento da sociedade na área. Mudanças de maior grau começaram a surgir na década de 60, com a criação de cidades, rodovias, áreas para produção agrícola, para produção pecuária, para produção carvoeira, para produção madeireira e para a mineração.


Exemplos como os garimpos e a mineração em alta escala, já deixaram suas marcas contaminando rios com mercúrio e provocando o assoreamento de cursos de água. A expansão da fronteira agrícola, de baixa produtividade por hectare, a exploração predatória de material lenhoso, incêndios florestais e obras de infraestrutura, como pequenas centrais e usinas hidrelétricas, são fatores que continuam a pressionar ainda mais a sobrevivência do bioma. Aliado a isso, o Cerrado é o hotspot de biodiversidade com menor área sobre proteção a nível mundial. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), O Bioma apresenta 8,21% de seu território legalmente protegido por unidades de conservação; desse total, 2,85% são unidades de conservação de proteção integral e 5,36% de unidades de conservação de uso sustentável, incluindo RPPNs (0,07%).


Ao observarmos as evidências, fica claro que a situação é crítica. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 20% das espécies nativas e endêmicas já não ocorram em áreas protegidas e pelo menos 137 espécies de animais que habitam o Cerrado estão ameaçadas de extinção. Além disso, olhando para o abastecimento de água, a retirada da vegetação do bioma tira a capacidade de seu solo reter umidade, pois quando descoberto, maior é a evaporação. Assim, uma menor quantidade de água vai para a bacia dos rios, gerando um ciclo vicioso onde a seca predomina.


As escolhas entre crescimento e preservação possuem trade-offs e precisamos priorizar aquelas que tornem o sistema e sua operação sustentáveis, pois muito do bioma já foi perdido. Esse desequilíbrio pode gerar muitas consequências negativas e, potencialmente, irreversíveis.


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