• Vania Lech

A inserção do desenvolvimento sustentável no setor da construção civil

Sendo o setor que mais consome recursos naturais, a construção civil possui grandes oportunidades. Conheça mais sobre o que vem sendo desenvolvido atualmente.



A industrialização e a vida moderna exigem uma produção cada vez maior de uma série de bens para alimentar o consumo desenfreado que vivenciamos nos dias de hoje. No entanto, esse estilo de vida, em que somos estimulados a consumir cada vez mais, é prejudicial para o meio ambiente, tanto por utilizar recursos esgotáveis como se eles não o fossem, tanto por levar ao acúmulo de detritos – poluindo florestas, rios e mares, além de afetar a atmosfera com gases poluentes.


Tendo isso em mente, uma parcela da população, empresas e governos vêm se esforçando para caminhar em direção ao desenvolvimento sustentável, que hoje é visto como um diferencial competitivo, mas logo passará a ser um ponto essencial para a sobrevivência de organizações em todos os segmentos do mercado. Tornar-se uma empresa sustentável significa adequar-se à nova cultura empresarial, que se mostra interessada em seus aspectos financeiros e em seu papel socioambiental, comportamento que também garante mais credibilidade e respeitabilidade a uma marca.



Como a construção civil vem se tornando mais sustentável


Sendo a indústria da construção civil o setor das atividades humanas que mais consome recursos naturais¹ e a que mais gera resíduos, ao mesmo tempo em que é uma peça chave no desenvolvimento do país, sendo uma roda essencial da economia, ela não poderia ficar de fora dessa tendência. Sendo assim, precisamos transformá-la numa das ferramentas fundamentais para o alcance dos objetivos globais do desenvolvimento sustentável.


Nesse sentido, já existem os chamados prédios verdes, empreendimentos sustentáveis dentro da construção civil. Esses empreendimentos adotam medidas como o respeito à fauna e flora do local de construção, a utilização de materiais sustentáveis e a aplicação de conceitos para que recursos naturais como luz solar, água da chuva, luminosidade e ventilação sejam aproveitados.

Segundo o Professor Doutor Wilmar Mattes – Doutor e Mestre em Engenharia Mecânica e Administração, pesquisador da Universidade da Califórnia, Los Angeles, desde 2008 e professor de Engenharia no Centro Universitário de Santa Catarina desde 2002 – os prédios verdes só recebem essa denominação se atenderem a seis regras básicas:


- Sustentabilidade do canteiro de obras e da região, inclusive com a recuperação de todas as áreas afetadas pela obra;


- Eficiência total no consumo de água, reaproveitando a água utilizada e aproveitando a água da chuva;


- Garantia da redução do consumo e da eficiência energética do prédio, com uso de fontes renováveis de energia;


- Reciclagem e tratamento correto dos dejetos e resíduos;


- Trabalhar para manter em nível mais baixo possível as emissões de poluentes e usar materiais de origem vegetal ou reciclados no acabamento ou infraestrutura e


- Buscar sempre a melhoria e a adequação dos procedimentos.


A construção sustentável depois de pronta deverá ter coleta seletiva de lixo e um local específico para acondicionar os resíduos recicláveis.


Ainda segundo Mattes, toda construção pensada de maneira sustentável reduz o impacto negativo das obras, como barulho, sujeira e tarefas repetitivas. Reduz custos com ar-condicionado, calefação e emissões de CO2; recicla materiais e estruturas após a demolição e ainda concebe projetos habitacionais de baixo custo para melhorar as condições de vida da população de baixa renda.


Olhando para as emissões de CO2, existem inovações que visam melhorar a sustentabilidade do cimento, material mais utilizado na construção civil. De acordo com a Chatham House, aproxidamente 8% das emissões globais de CO2 vêm da produção do cimento. Um exemplo de empresa que se esforça para reduzir os impactos dessa indústria é a americana Solidia, que afirma reduzir as emissões em sua produção em 30% a 40%, além de sequestrá-las durante a cura do concreto.


Outra inovação desse mercado é a bateria recarregável à base de cimento, desenvolvida pela doutora Emma Zhang – anteriormente da Universidade de Tecnologia de Chalmers, Suécia – e pelo grupo de pesquisa do professor Luping Tang. O conceito pode ser utilizado para a alimentação de LEDs, fornecimento de 4G em áreas remotas e, de acordo com Zhang, “também pode ser acoplado a painéis de células solares, por exemplo, para fornecer eletricidade e se tornar a fonte de energia para sistemas de monitoramento em rodovias ou pontes, em que sensores operados por uma bateria de concreto poderiam detectar rachaduras ou corrosão”.


Atualmente a bateria possui densidade energética média de 7 Wattshours por metro quadrado, o que ainda é um valor baixo ao se comparar com as baterias convencionais. No entanto, devido à sua aplicabilidade – que representa um grande volume de construção em que a bateria seria construída, como em edifícios – essa questão pode ser superada.



O que se espera para o futuro e os benefícios dos projetos verdes


De acordo com o engenheiro e professor da Escola de Projetos, Construção e Planejamento da Universidade da Flórida, Charles Kibert², espera-se que toda a energia consumida por uma família em atividades cotidianas, como aquecer água, usar eletrodomésticos, recarregar um veículo elétrico, será fornecida pelo próprio edifício por meio de fontes renováveis, os chamados Edifícios de Energia Zero, que produzem mais energia do que consomem ao longo de um ano.


A motivação para além da responsabilidade em preservar e administrar melhor os recursos naturais é bastante pragmática: sustentabilidade é também um bom negócio do ponto de vista econômico. Um levantamento de custos da construção civil feito pelo U.S. Green Building Council, informa que projetos verdes (certificados pela instituição) emitem 33% menos carbono, exigem 45% menos gasto com energia elétrica, usam 54% menos água no dia a dia, possuem custo de manutenção 13% mais barato e índice de satisfação do morador 27% maior que a média norte-americana.


Portanto, abraçar a sustentabilidade tem se mostrado uma ação capaz de trazer benefícios para todas as partes envolvidas, o que nos resta agora é colocá-la em prática. Vai fazer uma reforma ou construir algo do zero? Considere utilizar práticas de construção e arquitetura sustentável. No futuro, você e o planeta irão agradecer.



Referências:


¹JOHN, V.M. Reciclagem de resíduos na construção civil – contribuição à metodologia de pesquisa e desenvolvimento. São Paulo, 2000. 102p. Tese (livre docência) – Escola Politécnica, Universidade de São Paulo.


²COELHO, Darlene; CRUZ, Victor Hugo; Edifícios inteligentes: uma visão das tecnologias aplicadas. Blucher Open Acess.


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