• Marina Torres

A estação mais seca do ano como um lembrete para um problema recorrente

Saiba mais sobre as causas e consequências das queimadas e quais medidas podem ser adotadas para combatê-las



Em 2020 presenciamos os maiores incêndios florestais dos últimos 18 anos, tanto em extensão quanto em emissões de CO₂. Diferentes biomas foram afetados diretamente pelas chamas: na África, a savana e as pradarias; na Ásia, as florestas tropicais da Indonésia; na Oceania, as florestas australianas; na Europa, as turfas árticas na Sibéria; nas Américas, o chaparral californiano nos EUA e a Bacia Amazônica, o Pantanal e o Cerrado no Brasil.



Principais causas das queimadas


De acordo com um relatório elaborado pela WWF em conjunto com o BCG (Boston Consulting Group), o clima mais quente e seco decorrente das mudanças climáticas e o desmatamento causado principalmente pela conversão de terras para a agricultura são as duas principais causas desse problema ao redor do mundo. No caso do Brasil, temos a floresta amazônica como exemplo, na qual a expansão da agricultura e a extração ilegal de madeira e minério aumentam cada vez mais o risco de queimadas na região.


O mecanismo que faz com que as queimadas sejam geradas pelas mudanças climáticas cria um ciclo vicioso: quanto mais queimadas existem, mais o clima fica seco e maiores são as emissões de gases de efeito estufa (GEE) que, por sua vez, agravam o aquecimento global, aumentando as chances de ocorrerem queimadas. Podemos olhar para as turfas árticas para ver como isso funciona na prática. Com o aquecimento global, esse bioma se tornou mais quente, descongelando sua vegetação e consequentemente, emitindo GEE como o dióxido de carbono e óxido nitroso, um gás com potencial 310 vezes maior que o CO₂ para o aquecimento global. Essa vegetação, assim como as florestas tropicais, atua como um sumidouro de carbono e os incêndios que ocorreram em 2020 foram responsáveis pela emissão de 244 megatoneladas de CO₂, aproximadamente 74% do total emitido pela França em 2016 - 329,6 megatoneladas.


Alinhada às mudanças climáticas, a ação humana é crucial para explicar as queimadas que ocorreram no Brasil e nos demais países. Segundo o relatório, estima-se que 75% de todos os incêndios florestais que ocorrem ao redor do mundo podem ser atribuídos aos humanos. Como exemplo, existem as chamadas queimadas de desmatamento, que são parte de um processo de remoção de florestas. Primeiro, a floresta de determinada área é derrubada para fins como a criação de gado, garimpo ou plantação de culturas agrícolas e, em seguida, todo aquele material orgânico é deixado em descanso para secar. Uma vez seca, a vegetação é queimada para “limpar” a área. Porém, com a seca e a fragmentação das florestas, essas chamas se espalham para locais não desejados, tomando proporções inimagináveis. Em pequenas porções de terra, há a prática da coivara, adotada por produtores locais, que causa os mesmos efeitos, porém em escala muito menor. Nela, os agricultores queimam uma parcela do terreno onde será introduzida uma nova cultura agrícola.



Consequências das queimadas na população e nos ecossistemas


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), incêndios podem levar a diversos riscos à saúde das comunidades localizadas próximas ao fogo, como queimaduras e ferimentos, irritação nos olhos, nariz, garganta e pulmão, diminuição da função pulmonar, bronquite, exacerbação de doenças cardiovasculares, fraqueza muscular e também o comprometimento da fala, da audição e da visão.


Mas além dos problemas físicos, o psicológico da população também é fortemente abalado. Em entrevista ao Greenpeace, o ribeirinho Armindo Alves de Freitas, de 74 anos, morador da comunidade Piúva, relata como sua saúde física e mental foram afetadas pelo episódio do fogo no Pantanal: “Ninguém veio nos ajudar. O bombeiro parou lá do outro lado do rio e foi embora. Um policial chegou a vir aqui, mas não fez nada. No dia seguinte, quando conseguimos controlar, eu fiquei ruim. A pressão subiu, eu só lembrava do episódio de fogo e as labaredas urrando. Tive que ir ao cardiologista e ele me disse que eu tinha desidratado de uma vez”. Em outro depoimento, Zulmira Maria Lúcio, líder da comunidade quilombola de Mata-Cavalo de Cima, diz “Eu fiquei sem voz, sem força de falar, eu fiquei 15 dias com aceleramento do coração e achei que tinha perdido minha vida com aquele fogo bravo”.


Além dos impactos diretos na saúde, as queimadas deixam um rastro enorme que compromete a segurança alimentar dessas comunidades através da contaminação das águas e da destruição das produções com as quais muitas famílias contam para sobreviver. Ao se alastrar, o fogo não apenas destrói as plantas que já estavam dando frutos, mas também compromete a qualidade do solo para futuros plantios, reduzindo sua capacidade de absorção de água, acelerando o processo de perda de matéria orgânica e tornando-o mais exposto à radiação solar.


Outro processo preocupante é a condução das cinzas das queimadas para as águas das regiões. Como consequência, há a proliferação de bactérias, que acabam por aumentar a quantidade de gás carbônico na água e provocar, então, a morte dos peixes que ali vivem. Ademais, parte do carbono produzido é liberado na atmosfera, acentuando o efeito estufa e, consequentemente, o aquecimento global.


Com relação à biodiversidade, os incêndios têm impactos que podem perdurar por muitos anos. De acordo com um estudo conduzido na Amazônia sob a orientação do chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática (DIOTG) do Inpe, Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão, mudas e arbustos são os primeiros a morrer, mas árvores pequenas e médias podem levar até três anos. Com a morte dessas árvores, todo o carbono que estava sendo retido e armazenado por elas é liberado novamente para a atmosfera, ao mesmo tempo em que a vegetação que sobrevive não é capaz de absorver o excedente.


Um estudo publicado pela revista Nature na última quarta-feira (14) indica que, por conta das queimadas e do desmatamento, a Amazônia está emitindo 0,29 bilhão de toneladas de carbono por ano além do que consegue absorver. De acordo com Luciana Gatti, uma das autoras do estudo, isso ocorre devido às emissões diretas e indiretas dos incêndios. "É sabido que acontece uma emissão direta com a queimada. A emissão indireta acontece porque, segundo o que observamos, as regiões desmatadas apresentam maior perda de chuva, principalmente na estação seca (agosto a outubro)". Consequentemente, as temperaturas se elevam e a fotossíntese realizada pela vegetação é afetada, o que faz com que as árvores emitam uma quantidade maior de CO₂ do que emitiriam normalmente.


Os animais, por sua vez, também passam por desequilíbrios, ferimentos e mortes. Espécies como cobras, sapos e pequenos roedores são exemplos de animais que sofrem um maior impacto das queimadas por serem menores e apresentarem locomoção mais lenta. Entretanto, até as onças pintadas, que tem maior facilidade de buscar refúgio nessas situações, foram fortemente impactadas e correm risco ainda maior de entrarem em extinção. Uma diminuição no número de animais é preocupante não só pelo fato isoladamente, mas também por colocar em risco toda a sua função de regulação do ecossistema. A onça, por exemplo, está no topo da cadeia alimentar e, portanto, é responsável por regular o tamanho da população de várias outras espécies menores. Uma vez que a população de onças diminui, todo o equilíbrio é prejudicado.


Além dos efeitos nas esferas social e ambiental, as queimadas também afetam a economia. A população mundial está cada vez mais preocupada com a origem e com o processo pelo qual passaram os bens e alimentos que adquirem. Frente a tantos escândalos ambientais que envolvem nosso país, não é de se admirar que muitos compradores internacionais estejam começando a questionar a procedência dos produtos que ofertamos. Hoje, já existem movimentos de boicote aos produtos brasileiros por conta da suspeita (e, em alguns casos, confirmação) de que estejam contaminados com o desmatamento, isto é, que para a sua produção, tenha sido necessário realizar desmatamento ilegal. Por outro lado, de maneira mais direta, esses eventos prejudicam o ecoturismo, podendo levar inclusive ao fechamento de aeroportos por conta da fumaça gerada.


O que está sendo feito para solucionar o problema das queimadas


Há dois anos o Governo Federal vem autorizando o uso das Forças Armadas no combate às queimadas na Amazônia em determinados períodos de tempo. Em 2019 a operação ocorreu no período de 24 de agosto a 24 de setembro, sendo que em 2020, teve início em maio e perdurou até o fim de abril de 2021. Neste ano, através do decreto Nº 10.730, foi instaurada uma nova operação focada nos locais que apresentam maior incidência de crimes ambientais, que acontecerá de 28 de junho a 31 de agosto.


No entanto, a efetividade da ação pública tem sido questionada. De acordo com dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), abril de 2021 foi o mês com maior nível de desmatamento na Amazônia em seis anos. Além disso, o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, até o dia 31 de agosto de 2020 havia gasto somente 0,4% do orçamento disponível para ações como o combate à mudança do clima, a prevenção aos efeitos da desertificação, a política de proteção da biodiversidade e a promoção da qualidade ambiental urbana. Uma ação mais recente que elevou as preocupações de especialistas foi a retirada, na última segunda-feira (12), da responsabilidade do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), por meio do Governo Federal, de monitorar e divulgar dados sobre queimadas e incêndios florestais no país. A atividade, que era do Inpe há décadas, agora será atribuída ao Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), Instituto subordinado ao Ministério da Agricultura. De acordo com o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), Carlos Bocuhy, "o Brasil apresenta vulnerabilidades ambientais muito expressivas e relacionadas às florestas e à biodiversidade. A iniciativa de cercear a informação direta e de lançar a sua gestão para um órgão da pasta da agricultura é inapropriada, denotando incompetência ou má-fé", por configurar um conflito de interesses.


Enquanto isso, parte da iniciativa privada e outros agentes estão se movendo para trazer inovações que sejam capazes de conciliar as crescentes demandas sociais - agravadas pelo excessivo crescimento populacional - e o equilíbrio terrestre. Com a quarta revolução industrial, uma série de novas tecnologias surgiram, o que torna essa combinação aparentemente possível. De acordo com Carlos Nobre em entrevista à revista IHU Online: “sem dúvida, o grande potencial econômico de regiões com alta biodiversidade como a Amazônia está exatamente na diversidade de espécies e no potencial aproveitamento econômico dos ativos biológicos e biomiméticos em uma inovadora bioeconomia. Ainda que haja, em qualquer plano governamental para a Amazônia, alguma menção à valorização de cadeias produtivas oriundas da biodiversidade, os investimentos públicos e privados em ciência, tecnologia e inovação para fazer emergir esta nova bioeconomia são extremamente reduzidos, quando comparados aos investimentos numa economia baseada na substituição da floresta para produção de carne, grãos e minérios.” Essa visão também é verdadeira para o Pantanal e Cerrado, visto que é uma forma inovadora de produção que deve ganhar relevância crescente nos próximos anos.



Outras medidas que podem ser adotadas


Não há uma única resposta para combater o desmatamento e as queimadas, mas existem medidas que cedo ou tarde deverão ser empregadas para combater esses problemas. Uma delas é o investimento na educação e disseminação de informações para as comunidades locais a respeito de como os desmatamentos e suas consequentes queimadas, se iniciam, como se propagam, quais as consequências disso para os seres humanos, os animais e o planeta, e finalmente, como esses indivíduos podem ajudar. Sabe-se que em períodos secos esses biomas tornam-se mais “inflamáveis”, portanto, campanhas de conscientização e a alocação de recursos e profissionais que podem ser utilizados no combate às queimadas, devem acontecer anteriormente a esses períodos.

Além disso, o monitoramento é muito importante, e já vem sendo feito atualmente via satélite nos biomas da Amazônia e Mata Atlântica. Para ampliar sua efetividade, é necessário expandir o monitoramento para os demais biomas brasileiros, como Caatinga, Cerrado, Pantanal e Pampas, o que poderia ser feito de forma mais efetiva com o uso de drones de monitoramento. Sua inteligência artificial consegue compreender e reportar, ao vivo, desmatamentos e queimadas. Dessa forma, a ação ao combate desses acontecimentos aconteceria com maior velocidade e precisão. A partir do investimento nessa tecnologia, pode-se ter resultados importantes também no reflorestamento. Um case interessante é o da empresa DroneSeed, cujo drone é capaz de espalhar sementes por 40 hectares em um dia.


De acordo com o canal Rede Amazônia Sustentável, é preciso alinhar 3 incentivos para conseguir combater esse problema de forma efetiva. Primeiramente, é necessário punir os responsáveis. Como exemplo da urgência dessa medida, temos o fatídico “dia do fogo”, evento ocorrido em 2019, no qual foi ateado fogo na floresta amazônica no estado do Pará e, “das 207 propriedades que registraram queima em floresta nesses dois dias, apenas 5% foram autuadas”. O canal ainda acrescenta que se faz necessário a criação de incentivos fiscais e monetários para os praticantes da agricultura sustentável, como por exemplo: isenções fiscais e geração de créditos de carbono (o que precisaria ser facilitado e barateado). Por último, é necessário que as emissões globais sejam reduzidas para evitarmos o agravamento do aquecimento global, um dos grandes responsáveis pelo espalhamento das queimadas.


Outro documento que aborda possíveis soluções para essa questão foi elaborado pelo Observatório do Clima e mais 61 entidades, chamado “Cinco medidas emergenciais para combater o desmatamento na Amazônia”. Nele, essas organizações defendem que o Brasil precisa acabar com a moratória do desmatamento na Amazônia, endurecer as penas a crimes ambientais e desmatamento, retomar o Plano de Ação para Preservação e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), trabalhar na demarcação de terras indígenas, quilombolas e criação, regularização e proteção de Unidades de Conservação e realizar a reestruturação do Ibama, ICMBio e Funai.




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